LISTAS E FORMATOS
A lista é uma estrutura de informação simbólica que permanece imutável ao longo dos vários media em que se manifesta. A sua elaboração é fundamental para a recolha de dados que posteriormente, e de acordo com o potencial do medium em causa, serão cruzados, recombinados e interpretados. Assim se produz, a partir da matéria-prima (dados), conhecimento. Uma lista de referências bibliográficas, uma lista de autores, uma lista de citações, uma lista de obras, permitem, através do reconhecimento dos pontos comuns entre os dados, delimitar um território. Diz-nos Lev Manovich, no seu artigo: Database as a genre of New Media que, depois do advento da programação computacional, o mundo é reduzido a dois tipos de software objects: bases de dados e algoritmos. Por bases de dados entenda-se listas. Por algoritmos entenda-se a complexa rede de combinações possíveis dessas listas com outras listas, e dessas listas (dos dados que as compõem) entre si. Numa lista existem duas partes constituintes com igual importância: uma explícita, outra implícita, respectivamente, os dados, e a possibilidade de os combinar. A possibilidade de os combinar e recombinar (a propriedade implícita das listas), é o ónus dos media em que se manifesta e sobrevive. É o medium, e o seu rácio entre limitações e potencial, que determina quais as possibilidades recombinatórias de uma determinada lista. “The new media object consists of one or more interfaces to a database of multimedia material“(Manovich).
É agora altura de trazer um novo conceito à discussão. Harold Innis, no seu livro “The Bias of Communication” (innis) expõe a sua visão bicéfala dos media como controladores de tempo e de espaço. Innis demonstra como os media impressos (jornais, livros, etc) têm propensão para o controlo do espaço e do poder secular, enquanto os media gravados (placas de pedra ou argila) têm propensão para o controlo do tempo, a continuidade e o conhecimento metafísico e religioso. Partindo desta análise, podemos assumir que os media digitais, pela sua facilidade de propagação geográfica se prestam ao controlo do espaço, e pela sua imaterialidade falham redondamente no controlo do tempo. E esta questão não é menor: uma sociedade constrói a sua história com base no arquivo, e a propagação (e quase hegemonia) de media efémeros (digitais) torna a constituição de um arquivo uma tarefa hercúlea, senão impossível. Esta questão ainda parece preocupar poucas pessoas. Na vertigem de constantes inovações tecnológicas poucos parecem lembrar-se do aceleradíssimo factor de obsolescência dos media que produzem, e principalmente, armazenam informação. No blog do Visual Complexity (aqui), Manuel Lima escreve sobre a sua crescente preocupação com a falta de longevidade dos media digitais. Somos uma geração que se arrisca a não constituir arquivo. Também Umberto Eco demonstra estar atento a esta questão. Num pequeno artigo no Der Spiegel escreve sobre a efemeridade dos media: “Os suportes modernos parecem criados mais para a difusão da informação do que para sua conservação“. (…) “É possível que dentro de alguns séculos a única forma de ter notícias sobre o passado, quando todos os suportes eletrônicos tiverem sido desmagnetizados, continue sendo um belo incunábulo“. Evoque-se também o projecto LOST FORMATS PRESERVATION SOCIETY, do estúdio de design holandês Experimental JetSet, que conhece a sua génese nas páginas do número 57 da revista Emigre. Aqui, é particularmente interessante a atenção dada aos formatos de armazenamento de informação (data, audio, video), e os seu curtos períodos de vida útil, assim como a dialética que se estabelece entre forma e conteúdo: “We’re really interested in this continuous interaction between form and content: Form determining content determining form determining content etc. It’s a continuous flow, and in the ideal situation, you can’t really distinguish between form and content; they constantly change place”. E ainda: “In 2000, we realized formats were slowly disappearing. There once was a time when every format contained its own specific data, while nowadays the CD-ROM format is capable of containing all data, and even the CD-ROM is slowly disappearing.”
