POST COMPOSTO
Nuno Belmonte [românico]- ZONA DE CONTACTO
Paulo Vinhas (itálico)- EXISTENZMINIMUM
Tentar transmitir uma perspectiva aprofundada sobre todas as temáticas abordadas neste festival — sob o conceito “Paisagem” — num Post de blog, seria pretensioso e inglório. A “Paisagem” proposta, enquanto processo activo, foi mediado por experiências humanas “subjectivas”. Existe sempre uma percepção diferente quando a experiência é “real”, a panorâmica torna-se mais abrangente e as “alterações” pessoais mais evidentes e nítidas. Senti um excelente festival. Mais do que uma descrição fastidiosa sobre o evento (alguém o fará, certamente), é importante sublinhar alguns conceitos, ideias e relações que se estabeleceram nesta “Paisagem“. Sendo assim, assumimos duas perspectivas — uma mais absorvente (Nuno) e outra mais crítica (Paulo) — de modo a abordar o Festival de forma mais substantiva.
A minha presença no Mundo molda esse Mundo e modifica-me. O mundo molda a mente, e a mente molda o Mundo. Existe uma compreensão dialógica sobre a percepção do Mundo. O diálogo com espaço é negociado. Utilizamos as nossas ilusões enquanto processo construtivo.
A arte que uma sociedade produz é sempre um reflexo do tempo em que é produzida, do espírito do tempo, ou zeitgeist. Como indivíduos que são (e por mais individualizada que a produção artística seja), os agentes de produção artística não escapam a esta realidade, e produzem, na forma ou no conteúdo, de acordo com aquilo que se constitui como um panorama de paradigmas colectivos actuais. Ora, tomar a ciência como derradeira legitimação de qualquer coisa é precisamente um desses paradigmas. E como tal, a arte que se vai produzindo hoje, espelha bem esse estado de espírito. Princípios das ciências sociais, naturais e formais são recorrentemente introduzidos na prática artística e no design. As áreas de conhecimento contaminam-se e a hibridização instala-se. Um festival de Intermedia Experimental é disso um sintoma óbvio. Os temas tratados pelos convidados também.

Carsten Stabenow-Staalplat Sound System
CONVERSAS [1]
Carsten Stabenow (DE)
Staalplaat Sound System (DE)
O espaço é o som. O projecto utilizava sons do quotidiano, presentes na paisagem sonora já assimilada (que ouve, mas não se escuta). Critica a noção de ruído, que entende com “artificial”. Salienta a pesquisa sobre novas formas de o tornar produtivamente relevante, existindo a necessidade de uma reconfiguração no processo de Design. “Acordar” para o que nos rodeia sonoramente, criando novas relações com o espaço público. Escutar novamente. Neste contexto, o som torna-se “subjectivo” — como a experiência é vivida reflecte como o ouvimos.
Tuned City, um dos projectos apresentados por este dois convidados cruza preocupações da arquitectura/urbanismo, das ciências sociais e culturais, do design e até políticas. Grande parte dos projectos apresentados(City Matress, Inwound) tinham como preocupação maior a modelação da relação dos indivíduos com a paisagem sonora que os circunda.
A construção da paisagem (que constitui o real, aqui e agora) faz-se em diferentes níveis: sonoro, visual, físico e humano, e é um desafio a várias áreas de acção, como acima referido.

Jussi Ängeslevä & Ross Cooper- Last Clock (2001)
WORKSHOP [2]
Jussi Ängeslevä (FI/DE)
Formas de ver computacionais. Evoca a importância da “manipulação” da imagem para uma melhor percepção da realidade, em que o computador tem um papel decisivo — cria visualizações realisticamente impossíveis, mas traduz novos olhares, novas relações com o espaço, tempo e o observador. Um projecto — Extracts of Local Distance – exemplifica esta forma de “pensar”, em que os computadores executam as suas funções, deixando a composição para o Designer. Um momento para a procura de uma nova “ideia”: estar “consciente” do projecto e tentar “extrapolar”. Entre a discussão sobre a relevância ou aplicabilidade de projectos de media, e a “compartimentação” do artista media no contexto artístico actual, uma ideia sobressai — todo o artista é multimedia, a relevância reside na “ideia”. Esta deverá responder à questão “valerá a pena?”, existente na relação entre a complexidade do projecto e o “output” do mesmo.

Unsworn Industries Workshop-Scouting Locations-Festival UM Lisboa
WORKSHOP [3]
Unsworn Industries (SE)
Interaction Design. Trabalham à volta das relações dos indivíduos com o espaço público/privado. Os dispositivos que desenvolvem propõem novas formas de relação com os espaços que os contêm. Amplificam, modulam, dispersam e/ou re-direccionam a participação dos indivíduos na construção da paisagem sonora. Modelam comportamentos individuais e de grupo. Os seus projectos abordam questões sobre espaço público/esfera privada, responsabilidade —individual ou partilhada— participação, e comunicação. A metodologia de trabalho, que na sua estrutura deve muito ao protocolo científico (escolha do tema, formulação de hipóteses, e experimentação laboratorial) é reflexo da complexidade da proposta e da incerteza da resposta. Como nas ciências sociais, o foco da sua investigação reside nas relações dos indivíduos entre si, nas suas interacções, e nos resultados que produzem no desenho da cidade. Numa lógica de intervenções pontuais no espaço urbano, adicionando ou subvertendo equipamentos funcionais na/da cidade.

Terike Hapooja-Entropy-Festival UM Lisboa (2009)
CONVERSAS [2]
Evelina Domnitch e Dmitry Gelfand (NL)
Terike Haapoja (FI)
O aumento da nossa consciência e conhecimento sensorial foi transversal aos dois projectos. Na primeira abordagem, o espaço é perspectivado enquanto físico e metafísico (elástico e ilimitado quanto à sua direcção), na criação de uma Brainscape, em paralelo com a Landscape. Uma paisagem suportada numa linguagem esteticamente atraente e numa “consciência” de “aventura curiosa”. Relações entre energias (sonora e luminosa) na criação de experiências científicas particulares, ressonância acústica na captação de gás ou líquido, observações sonoquímicas, reflexões visuais sobre a matéria, são experiências que traduzem uma necessidade evidente de re-sintonização mental na percepção de novas linguagens. Com Terike, a existência de emoções em contacto com um processo físico estabelecem conexões entre a matéria e a mente. A preocupação criativa reside sobre o “dispositivo” e a forma como é utilizado (relaciona-se com workshop do Jussi). Este “diálogo” entre a vida e a tecnologia serve de orientação a vários projectos (Dialogue, Entropy, Passings, Inhale-Exhale). Diferentes conceitos de diferentes disciplinas estão implícitos nos seus projectos, e a individualidade — tão central no contexto artístico— é traduzida na atracção pelo conceito de comunidade (ver projecto das bactérias). Do feedback a ambos os percursos emerge a ideia de Paisagem enquanto movimento horizontal, que só se concretiza na existência de um observador, em oposição ao espaço físico. A “matematização” da natureza (informação enquanto representação matemática da natureza, suportada em medida e cálculo) e a utilização de elementos lógicos na “reconstrução” das “coisas” expressa uma Paisagem que não é, uma Paisagem apenas representada. A relação da arte com a ciência é evidente na distinção entre o artificial e o natural, numa prática controlada, que renega a associação da MediaArt a uma arte racionalizada, provida de emoções. Assumir uma “consciência” objectiva deste facto implica ter uma abordagem radical em relação ao “status-quo”,
gerando novas perspectivas, novas ilusões.
Destas duas conversas fica principalmente uma ideia: nestas áreas recentes de produção artística intermedia parece haver um certo fascínio com todo o aparato tecnológico que circunda estas práticas. De facto parece que um resultado inesperado de uma experiência científica se torna (demasiado) rapidamente num discurso artístico de sentido variável e avaliação discutível. Talvez, pela infância destas áreas, ainda seja demasiado ambicioso querer conseguir separar aquilo que se pode constituir como um discurso artístico daquilo que é um temporário fascínio tecnológico.
O fascínio pela descoberta científica é um dos paradigmas do mundo de hoje, e a indefinição sobre o que é o discurso artístico é um dos paradoxos de sempre. Também aqui parece haver uma zona indefinida de contacto, que não nos permite delinear inequivocamente o que é uma ou outra (arte/ciência). Se já desde a Renascença (sobretudo com Leonardo da Vinci) se advogava uma intrínseca relação entre investigação artística e investigação científica, agora, 500 anos volvidos — e com poucos exemplos de uma junção entre estes dois campos de investigação—a tecnologia (e não a ciência) parece ocupar essa zona de contacto com a arte.
WORKPATH – OPEN DISCUSSION
DC/FBAUL
UDK
É transmitida a ideia de “currículo aberto” como orientação dos cursos, promovendo maior autonomia e prática. No lado português, uma maior preocupação na relação entre-projectos, estabelecendo relações (conceito e estrutura) na transposição de ideias/conteúdo expressivos e substantivos (Cãoceito, Desconstrução Narrativa, Plataforma Comum, Reactor, entre outros). No lado alemão, o objectivo é testar as propriedades dos “ingredientes” dos novos media, já apresentados no Workshop [2] e na exposição ( Image Fulgurator, Monitor Photography e Artificial Smile, entre outros). Finalizando, questionam-se os projectos: obra de Arte ou projecto de Design. A criação de “frameworks” para a disciplina não reuniu consenso, colocando do lado do criador/designer o “sentir” em relação ao projecto que executa e à actividade de exerce.
CONVERSAS [3]
Unsworn Industries (S)
Jussi Ängeslevä (FI/DE)
A primeira parte foi de encontro ao tema na forma mais directa. A criação de conexões com o espaço público, através da criação de “áreas” de acção, traduz um objectivo. A abordagem, no entanto, não interfere, não assume. Dá um passo atrás e coloca o ênfase na audiência, nas pessoas (Telemegaphone). Estas assumem o destino dessa ligação, criando um vazio na atribuição da responsabilidade: Designer, proprietários ou audiência? Da grande escala para a pequena escala (Megaphonebooth), a obrigatoriedade da presença física na criação e transmissão da mensagem coloca novas questões, entre a solução (eu expresso-me) e a revelação (eu exponho-me). Do objectivo de encontrar o equilíbrio correcto emerge a primeira referência à essência do Design neste festival: resolução de problemas. Existe uma mudança a ocorrer na construção da “paisagem” do Design? Jussi mais uma vez aborda esta temática de forma inspiracional suportada em projectos implementados. Noção de reflexão, da relação entre imaterial e material (Duality; Body Mnemonics), da influência do “tempo” no “espaço”, tudo se encaminha para questões fundamentais: o que quero dizer com isto? o que significa isto? porque é que quero fazer isto? Questionar o conteúdo e a sua relevância poderá traduzir uma excelente perspectiva para este post, também.
Palavras-chave: Intermedia, Arte, Ciência, Design